domingo, 17 de julho de 2011

Um domingo

Minha avó continua dizendo que os nomes que colocou nas minhas tias existem e não foram inventados por ela mesma. Para cada existe uma história diferente, um porquê, uma explicação dada com algum esforço de memória e os olhos apontando para o lado esquerdo. Fui fazer um arroz de leite mas não deu certo, porque não deixei cozinhar bastante só com água e depois, quando fui concertar, ficou ainda pior, parecendo uma papa daquelas que se dão às crianças –por pura maldade. Os vidros continuam embaçados, minha mãe diz que é melhor eu não inventar de cozinhar milho, vai aumentar a umidade. Minha avó ficou procurando bichos pelo chão a tarde inteira, antes disso, na hora do almoço, tirou as meias e disse que havia um deles no meio dos dedos, lhe mordendo. É óbvio que só existem através dos óculos dela, mas vai dando na gente uma precaução, ou, quando muito, uma curiosidade quanto às formas de plumas escuras e pós que podem ser confundidos com um “bicho”. Depois, quando o bicho some de sua imaginação, ela protesta que só pode ter entrado em sua pele, indo direto ao coração. O médico, é claro, é o culpado. Ou ele conversa comigo e troca este remédio da cabeça, ou eu vou brigar com ele. Domingo é dia muito do xoxo, a gente não tem vontade de fazer nada ou quando tem vontade de alguma coisa, é coisa que a gente não pode fazer. É o dia do impossível, dia sem explicação. Continuo achando que não existe explicação para Marilanda Teresinha, Solange Perpétua, Claredes Maria e de modo algum para Clair Conceição, nem nunca vai existir.

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