quinta-feira, 28 de julho de 2011

Num tranquito bem marcado

Hoje me deu uma gana tão grande dentro de mim
Quando soube o que tu sentias
Quando pensei na gente e uma coisa distinta me avisou:
Faz parte do teu corpo;
Quando pulsa, estremece de amor num arrepio de certeza.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Esse medo

A gente tem medo. Tem medo de mostrar pros outros e que não nos entendam. Temos, aliás, certeza de que é exatamente isso o que vai acontecer. Depois, vão ser muitos fins de semanas de uma vontade que vai ter que ser contida sob uma consciência muito grande, muito grande de tudo o que planejamos. Não se deve brincar com nada disso; e a única coisa que nunca foi, foi brincadeira. Está aí o nosso erro, no sentido mais gostoso da palavra, porque não nascemos pra não ter coragem de construir um amor feito a tijolos de pedra.

domingo, 17 de julho de 2011

Um domingo

Minha avó continua dizendo que os nomes que colocou nas minhas tias existem e não foram inventados por ela mesma. Para cada existe uma história diferente, um porquê, uma explicação dada com algum esforço de memória e os olhos apontando para o lado esquerdo. Fui fazer um arroz de leite mas não deu certo, porque não deixei cozinhar bastante só com água e depois, quando fui concertar, ficou ainda pior, parecendo uma papa daquelas que se dão às crianças –por pura maldade. Os vidros continuam embaçados, minha mãe diz que é melhor eu não inventar de cozinhar milho, vai aumentar a umidade. Minha avó ficou procurando bichos pelo chão a tarde inteira, antes disso, na hora do almoço, tirou as meias e disse que havia um deles no meio dos dedos, lhe mordendo. É óbvio que só existem através dos óculos dela, mas vai dando na gente uma precaução, ou, quando muito, uma curiosidade quanto às formas de plumas escuras e pós que podem ser confundidos com um “bicho”. Depois, quando o bicho some de sua imaginação, ela protesta que só pode ter entrado em sua pele, indo direto ao coração. O médico, é claro, é o culpado. Ou ele conversa comigo e troca este remédio da cabeça, ou eu vou brigar com ele. Domingo é dia muito do xoxo, a gente não tem vontade de fazer nada ou quando tem vontade de alguma coisa, é coisa que a gente não pode fazer. É o dia do impossível, dia sem explicação. Continuo achando que não existe explicação para Marilanda Teresinha, Solange Perpétua, Claredes Maria e de modo algum para Clair Conceição, nem nunca vai existir.

sábado, 16 de julho de 2011

Hoje à tarde

Hoje a tarde veio com um quê de foto antiga metida em caixa de sapato. A umidade tomou conta do ar e tivemos que colocar folhas de jornal no chão da cozinha, que se fazia extremamente escorregadio. Faz algum tempo, minha mãe ganhou uma plantinha de presente; ela não é lá muito dessas coisas mas como foi presente de filho ela resolveu cuidar. Colocou-a em cima da estante da sala, que fica com a janela a oeste. Às vezes ela sai dali de cima pela manhã e vai pegar um pouco de sol na parte de trás da casa, junto com o Saddan, que está ficando velho e pegou a mania de raspar o reboco usando as unhas. Achamos que está tentando entrar no banheiro e de lá empreender caminho cuidadoso até o armário da cozinha, onde estão guardados os pães.
Minha avó vai vir pra cá daqui um pouco e vai trazer malas, fofocas e remédios. A plantinha, coitada, com essa umidade toda, fica parecendo um monte de cravinho, um do lado do outro, mas sem a canela. O que é, sem dúvida, uma tragédia.
O restinho de luz do dia está indo embora e levando consigo a caixa de sapatos, a roupa pendurada atrás da geladeira e o contorno do meu cabelo cortado à moda antiga.