É ruim da gente escrever tudo que dá vontade e aparece na cabeça da gente. E daí vamos escrevendo qualquer coisa aqui, depois apaga, rasga, esquece, não tem serventia, ninguém vai ler, ninguém tem porquê se importar com qualquer coisinha o tempo todo, e tem que se estudar porque depois é mais um ano desse jeito. É só cair no chão, deitar, dormir, descansar a cabeça, virar de lado, acordar de mau-humor e tomar água. Não tem água. Daí que se escova os dentes, fica um fresquinho na boca que alivia um pouco da sede, sede de mergulhar a cabeça numa pia cheia d’água, água gelada, e ficar lá até o nariz reclamar e fazer bolinhas com vontade de ar. Como não se vai até o fim, a cara fica ardida e só o que resta a fazer é procurar a toalha, enxugar o rosto e continuar tudo. Tudo de novo. Sem silêncio. Silêncio é ruim, a gente precisa estar sempre falando um assunto e outro, senão esquecem da gente, acham que a gente não quer mais nada ou qualquer outra coisa desse tipo. Às vezes é bom não se preparar muito pra isso. Na semana que eu te vejo eu não consigo fazer mais nada, já te disse? Claro que já. Já te disse tanta coisa. Bom te dizer coisas. Hoje não tive nada que te dizer. Ia te ligar, mas achei melhor não, porque não tem coisa pior do que não ter o que dizer e a outra pessoa esperando do outro lado da linha do telefone, com a mesma escassez de palavra. Compor, compunha, compus, palavra bonita, daquelas que dizem tudo. É tudo uma combinação, se não for recíproco parece que estamos fazendo mais do que deveríamos. Será culpa dos outros? Os outros é que colocam isso na cabeça da gente, os outros é que querem que desconfiemos da sombra, da dor de cabeça, de outro exemplo qualquer de coisa digna de desconfiança. Será que tomei o remédio? Tomei. Não tinha água, mas depois compraram o refrigerante, essas coisas esticam a pele; remédio com gás dá coceira na gengiva.
Céu de ternura
Há 12 anos