quinta-feira, 28 de abril de 2011



Eu não vou te ligar mais pra ficar ouvindo patada. Eu acho que mesmo que tu estejas com o pior humor do mundo, maltratando até tua avó que faz comida pra ti mas não lava a tua roupa, eu acho que tu não podes descarregar em cima da minha cabeça tudo que tu tens de ruim aí dentro de ti. É feriado e amanhã eu vou ver as crianças. Tu não imaginas o quanto elas são queridas; Ontem perguntaram por mim, o que me deixou achando elas ainda mais queridas e gostando ainda mais delas. Hoje de manhã eu fiquei imaginando os nossos, o Ernesto, o Erico, a Ceci, todos eles procurando ninhos de chocolate pela casa, que a gente escondeu na noite anterior, de mal um com o outro, porque tu deste vinho pros guris e eu não queria que fizesse isso sem me falar antes porque eu acho que são muito pequenos ainda. Daí que chegaram pulando, com uma cesta enorme, risquinhos nas bochechas e nariz pintado de preto na ponta, com exceção da Cecília, que trazia o dela vermelho. Eu comecei a chorar, porque tu usaste as crianças pra me pedir desculpas e veio logo depois com a cara pintada como a deles, mas sem os dentinhos. Porque daí também já era demais. Tu espantaste as crianças, disse pra elas procurarem os ovinhos de acordo com as migalhas de pão –acho que confundimos as histórias- e daí eu cheguei ao pé da cama e tu me abraçaste, me pegou no colo, sem nem fazer muita força, me beijou no pescoço, desculpa meu amor, meu amorzinho, passou a língua e mordeu meu pescoço, depois isso na boca e parou, apertou o abraço e fazia com as mãos como se estivesse coçando minhas costas –um mimo. Eles voltaram, me derrubaram na cama e me pintaram, tu buscaste a máquina fotográfica, eu precisava ficar a caráter na foto que depois iria pra estante de fotos da sala. Eu chorava também porque tu não tinhas me ligado.

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